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Timor-Lorosae/Eleições
A segunda "lição de sabedoria"
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Dois anos depois do referendo popular, os timorenses voltaram ontem a dar uma "lição de sabedoria" ao mundo, votando massivamente nas primeiras eleições livres, num acto que teve uma afluência calculada em 93 por cento. A estimativa foi feita pela Comissão Eleitoral Independente(CEI), com base nos resultados parciais de 145 dos 248 centros de voto e revelada três horas depois do encerramento das urnas. O processo eleitoral em Timor-Lorosae foi, aliás, considerado "um exemplo para toda a comunidade internacional" pelo administrador da ONU em Timor-Lorosae, Sérgio Vieira de Melo. "Um exemplo de calma, de tranquilidade, de sabedoria, de dignidade. Um entusiasmo comedido, tudo o que esperávamos do povo timorense confirma-se hoje", disse, salientando a "imensa e incrível" afluência logo às primeiras horas da manhã O administrador da ONU referiu que o voto decorreu sem qualquer incidente, o que constitui "a melhor mensagem possível de que valia a pena apostar em Timor-Lorosae". O interesse demonstrado pelos timorenses nestas primeiras eleições livres e democráticas do país ultrapassou a própria hora de encerramento das urnas. Depois da hora oficial (16 horas locais), cerca de 500 pessoas aguardavam ainda vez para votar no centro eleitoral a funcionar no colégio Paulo V, no Bairro Central, em Díli. Svetlana Galkin, responsável pelo centro eleitoral 120 instalado naquela escola, disse à Lusa que a assembleia poderá registar uma adesão superior a 100 por cento, já que, além dos eleitores ali registados, votaram ainda timorenses que tinham direito a voto mas não tinham sido incluídos nas listas por omissão. Segundo a Comissão Eleitoral Independente, duas horas antes do fecho das urnas já tinham votado mais de 75 por cento dos eleitores registados para as eleições de ontem, apesar das longas filas ainda junto às assembleias de voto. A vontade timorense começou a expressar-se cedo, já que tal como há dois anos, no referendo onde foi decidida a independência do território, o povo concentrou-se desde as primeiras horas da manhã para votar. Ao contrário, porém, do que aconteceu quando se votava para a auto-determinação, os eleitores timorenses foram votar sem receios. "As pessoas não estão com medo", ou "não há medo nenhum" foram frases ouvidas em Tuanalaran, na escola primária que fica nas imediações da antiga sede da ONU em Timor, a UNAMET, ou na Escola Paulo VI, no Bairro Central. Às primeiras horas da manhã na longa estrada que atravessa o bairro de Bécora havia já muita gente a caminho dos locais de votação, enquanto no bairro de Nulara, a fila chegou a dar uma volta ao muro que cerca a escola onde funcionou a assembleia de voto. |
![]() "A maturidade política demonstrada pelo povo" timorense foi sublinhada pela maior parte dos observadores políticos e principais protagonistas, a começar pelo líder histórico da resistência, Xanana Gusmão. "Estou feliz por saber que o povo timorense sente como seus os valores da democracia", disse aos jornalistas, acrescentando que "este é um momento histórico, com uma nova dimensão para o futuro de Timor-Lorosae". Eleitor 0168677, Xanana votou na escola primária 10, de Manatuto, acompanhado da mulher e do filho, tendo chegado às oito da manhã onde aguardou cerca de 45 minutos que chegasse a sua vez de exercer o direito. Mais tempo esperou Mari Alkatiri, secretário-geral da Fretilin, o partido apontado como previsível vencedor das eleições para Assembleia Constituinte, e que aguardou quatro horas para exercer o seu direito de voto na Escola de Cristal, em Díli. Mari Alkatiri, tal como Ana Pessoa, também dirigente da Fretilin, decidiu aguardar a sua vez como qualquer outro eleitor, abdicando do privilégio concedido aos dirigentes e responsáveis timorenses de poderem passar à frente dos restantes cidadãos que aguardam a sua vez para votar. "Hoje somos todos eleitores", justificou o responsável da Fretilin, acrescentando:"Quero ver o que hoje corre mal para quando amanhã for Governo poder compor as coisas". O presidente da UDT, João Carrascalão, foi a única voz dissonante em todo o processo eleitoral, reafirmando que as eleições para a Assembleia Constituinte em Timor-Lorosae deviam ter sido adiadas, pelo menos em seis meses. Na fila para votar, no liceu SMU3, Bairro do Matadouro, em Díli, Carrascalão justificou o adiamento com a falta de informação da maior parte dos timorenses. "A população rural vai votar sem estar adequadamente informada", embora esteja interessada em participar, como prova a grande afluência às urnas, embora mais reduzida do que há dois anos, disse o dirigente partidário, concluiu. |