Timor Lorosae de A a Z em Abril 2001

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Timor Lorosae de A a Z em Abril 2001

Em Setembro de 1999 a brutalidade invasora do exército indonésio chegou ao auge com a destruição de Timor Lorosae. O povo foi retirado das suas residências, os seus haveres foram pilhados e de seguida deitaram fogo a tudo. Um grande némero de habitantes foi fuzilado e cerca de 100 mil foram obrigados a deslocar-se para território indonésio, mais concretamente para Atambua. No meio do luto, da dor e da fome chegaram as forças militares australianas e posteriormente os capacetes azuis da ONU. Com eles, um administrador, Sérgio Vieira de Melo, acompanhado de uma equipa tão plural quanto burocrática. Uma situação em nada diferenciada das semelhantes onde a ONU teve de intervir. Da estaca zero em 1999 para a incompreensível estaca zero em Abril de 2001. O povo timorense continua a aguardar por melhores dias, por organização, por oportunidades de autonomia administrativa, resumindo, por ser independente com apoio internacional. Em apenas cinco dias o HOJE percorreu o território, conviveu com o povo real, com os políticos, com os cooperantes e com a triste reslidade. Tirou as suas conclusões e expressa-as neste suplemento especial para que fique gravado na história que o "primeiro jornal de Timor livre" continua atento às formas como se escreve essa mesma história.

A - Alkatiri, Mari - Um dos veteranos da resistência timorense no exterior e a face mais política da Fretilin. Ocupa o cargo de ministro da Economia no governo de transição da UNTAET (ler letra U) e cabe-lhe essencialmente patentear o maior consenso e equilíbrio possíveis nas negociações com o governo australiano para a exploração do gás natural e petróleo nas águas de Timor Lorosae no ómbito do chamado Timor Gap. A sua experiência política deverá prevalecer no seu partido, a fim de evitar radicalismos que j&accute;se observam no território com a formação de diferentes vias. Por um lado, os apoiantes de Alkatiri e de todo um passado reivindicativo de luta pela independência na base da solidariedade e do diálogo com outras forças políticas nacionais e estrangeiras. Por outro lado, um grupo apoiante do ex-presidente da Fretilin, Xavier do Amaral, o qual viveu todos os anos de resistência em Jacarta e que este mês surpreendeu os observadores políticos com uma deslocação a Taiwan, quando se sabe que a Repéblica Popular da China privilegia o diálogo com Alkatiri. E ainda os apoiantes da chamada RDTL, iniciais de Repéblica Democrática de Timor Leste, os quais se apresentam a radicalizar posições avançando com a tese de que o território já éum país independente desde a proclamação em Novembro de 1975 e que nesse sentido, toda a presença estrangeira que administra transitoriamente o território não tem razão de ser. Esta éltima via que reivindica a bandeira da Fretilin e da RDTL é apontada em Timor Lorosae por diferentes quadrantes como uma força essencialmente destabilizadora com apoios fortes de indivíduos ligados a interesses indonésios. Mari Alkatiri, nas suas funções ministeriais, tem tido um importante papel no combate aos empreendimentos não licenciados e sem qualidade. No entanto, deverá juntamente com o seu colega João Carrascalão (ler letra C), ministro das Infra-Estruturas, colocar mais enfase na determinação de aceitar e aprovar projectos de importóncia capital para a estabilidade e desenvolvimento do território, particularmente nas áreas da energia, água, telecomunicações, estradas e saneamento básico.

B - Basílio do Nascimento - O bispo-régulo. D. Basílio é um homem afável, inteligente, empreendedor e amado por todo o povo de Baucau e da ponta leste do território. Em Abril de 2001, após três intervenções cirérgicas em Portugal do foro cardiológico, regressa a Timor Lorosae e preocupa-se em minimizar a dor e a incerteza dos seus compatriotas. Em Setembro de 1999, as tropas indonésias acompanhadas de milícias atacaram a sua casa pretendendo liquid&accute;-lo. As marcas dos tiros ainda são visíveis nas paredes da sua residência. Acompanha, sem telefone e sem electricidade, toda a actividade política que se desenrola no território, mas sente-se naturalmente desapoiado. O conhecido economista Henrique de Jesus está em Baucau a dar-lhe ajuda na análise de projectos futuros que reacendam a chama do desenvolvimento e da prosperidade. O bispo está forçosamente preocupado com o seu povo e admite que á urgente que as promessas que têm sido feitas de cariz solidário pelo povo timorense passem das palavras aos actos. Baucau tem o maior aeroporto de Timor Lorosae, construído pelo exército japonês durante a invasão na Segunda Guerra Mundial, o qual pode muito significativamente constituir-se como o melhor trampolim para o desenvolvimento da região mais atraente e acolhedora do território. D. Basílio juntamente com o bispo de Díli, D. Ximenes Belo, na qualidade de representantes máximos da Igreja Católica, constituem, sem dévida, uma mais-valia social, respeitada pelos sectores políticos, e de suma importóncia para o futuro de Timor Lorosae.

C - Carrascalão - Uma das famílias mais populares e respeitadas de Timor Lorosae. Doze irmãos que aprenderam com o seu pai - o líder anarco-sindicalista deportado por Salazar, Manuel Viegas Carrascalão - a lutar contra a subjugação de qualquer ordem e contra todas as formas de prepotência. Três deles são das figuras mais influentes do actual xadrez político timorense. Manuel Carrascalão, independente, que se manteve no território durante os anos de ocupação indonésia e que sempre se mostrou um opositor das ideias javanesas, foi eleito recentemente presidente do Conselho Nacional. Lugar que tinha sido abandonado por Xanana Gusmão. Mário Carrascalão foi durante 10 anos governador sob a soberania indonésia. A resistência timorense manifestou-lhe gratidão pela defesa intransigente que sempre fez dos valores sociais e culturais do seu povo. É vice-presidente do CNRT e fundou recentemente um novo partido denominado PSD. João Carrascalão radicou-se na Austrália desde 1975 e é o presidente da União Democrática Timorense (UDT), um partido que no exterior congregou os timorenses e amigos de Timor Lorosae que não se reviam nas teses do socialismo popular da Fretilin. Hoje ocupa a pasta das Infra-Estruturas no governo de transição da UNTAET. Alguns observadores mostram-se preocupados com as divergências políticas entre os três irmãos, no confronto ideológico que venha a acontecer nas eleições de Agosto próximo para a Assembleia Constituinte. Outros há que contrapõem dizendo que a divergência é salutar e apontam exemplos como os dos irmãos Portas ou Ferreira do Amaral na política portuguesa.

D - Doadores. Os países que se disponibilizaram e se comprometeram a apoiar a administração das Nações Unidas em Timor Lorosae para um período transitório de três anos. Uma doação relevante e significativa se atendermos que na reunião de Tóquio, em Dezembro de 1999, esses países assinaram um tratado para uma doação no valor de 523 milhões de dólares americanos. A maior fatia do bolo é dada pelo Japão, seguido-se Portugal e Austrália. Os outros doadores são a União Europeia, os Estados Unidos da América, Nova Zelóndia e Brasil. Doadores que devem interrogar-se sobre a aplicação das verbas por parte da administração. Os timorenses queixam-se que nada avança. O que é um facto. Queixam-se que a sua pobreza não é minimizada em nenhum sector. O que é real. Queixam-se da discriminação nos salários pagos aos funcionários estrangeiros relativamente aos dos funcionários timorenses. O que não é mentira, com uma ressalva. É bom que se esclareça que no respeitante aos vencimentos auferidos pelos ministros timorenses (uns miseráveis 500 dólares americanos por mês, contra os 10.000 dos estrangeiros) a decisão coube ao CNRT que entendeu aprovar uma determinação no sentido dos ministros timorenses não usufruirem remunerações que chocassem com a pobreza da maioria do povo. No entanto, é importante que se divulgue o descontentamento manifestado pelos timorenses quanto aos gastos supérfluos dos administradores da ONU. Gastam-se milhões de dólares em acções que em nada têm beneficiado o povo e o futuro desenvolvimento do território.

E - Electricidade. É um dos bens sociais de maior importóncia para a estabilidade psicológica e social de um povo. Sem electricidade não haverá reconstrução e desenvolvimento. Em Timor a falta ou falha de energia eléctrica é uma das maiores lacunas dos responsáveis. A electricidade é suspensa mais de uma vez por dia. Na maioria das vezes, a população fica sem energia durante mais de quatro horas e já no período nocturno. Os bancos intalados, o BNU e o australiano ANZ, queixam-se pelo facto dos sistemas informáticos serem consecutivamente abalados. Os hotéis e restaurantes "salvam-se" com geradores, tal como os mais abastados. O povo continua à luz da vela, da fogueira ou do isqueiro. As falhas de electricidade danificam os electrodomésticos e os aparelhos de ar condicionado. Numa terra onde se fazem grandes sacrifícios para comprar um frigorífico, concordemos que no mínimo, é deplorável que passados 19 meses o território ainda não possua as condições técnicas necessárias para um normal consumo de energia, de água e de telecomunicações. Quanto a este éltimo sector reina o escóndalo. A empresa australiana Telstra mantém (até quando?) o monopólio nos telefones com lucros inimagináveis. A rede fixa e a de telemóveis continuam sob exploração da Telstra. Pudera, se registarmos que a maioria das pessoas em Díli usa telemóveis e que qualquer chamada realizada na cidade entre um telemóvel e a rede fixa, ou vice-versa, é facturada como chamada internacional...
Há muito que já deviam ter sido realizados os concursos péblicos para a adjudicação da exploração da energia eléctrica e das telecomunicações. Quanto ao sector das telecomunicações reina grande azáfama nos consórcios internacionais. O interesse vai desde o Japão a Singapura, de Taiwan à Indonésia, dos EUA à Austrália, de Hong Kong a Portugal. A empresa portuguesa - Portugal Telecom - é que terá certamente dificuldades em justificar ao pormenor a sua escolha, pouco apaziguadora e assaz polémica, do parceiro para o concurso, nada menos que a Indonésia.

F - Fiji - No ómbito das diferentes Forças Armadas de vários países que se encontram estacionadas em Timor Lorosae, os militares de Fiji têm conquistado os corações dos timorenses que possivelmente ficaram mais traumatizados com o massacre militar de Setembro de 1999 levado a cabo pelos militares indonésios. Os habitantes das cidades do Suai e Maliana, bem como, as populações residentes ao longo da fronteira têm hoje um carinho e admiração muito especial pelos boinas azuis vindos de Fiji. E a razão é simples, mas secreta por não fazer parte de qualquer informação dada aos jornalistas em serviço no território. As tropas de Fiji têm mantido confrontos sangrentos com milícias que se têm introduzido em solo timorense e a nenhuma dessas milícias têm dado tréguas através de ataques mortíferos. Estas tropas apresentam-se com uma técnica esmerada, ao ponto de camufladamente se manterem vários dias a aguardar a passagem dos milicianos, para no melhor momento poderem executar o seu ataque fatal. As populações de Suai, Maliana e de toda a região fronteiriça com a Indonésia têm nutrido a estes militares os melhores encómios.

G - GNR - Os militares da Guarda Nacional Republicana realizam um trabalho exemplar em Díli. É a opinião unónime de quantos defendem a tranquilidade, a ordem e a paz. Em vários pontos da capital pululam nas ruas grupos de desempregados apenas interessados em criar distérbios sem a mínima justificação. Distérbios e desacatos tinham passado a ser o pão nosso de cada dia nas ruas da capital. A zona do Mercado estava a tornar-se um gueto de bandos destabilizadores (ainda hoje é a parte mais degradada da cidade). Com a chegada dos militares portugueses da GNR a situação começou a alterar-se e é raro o cidadão residente em Díli que não afirme que a GNR é a énica força corajosa e dissuasora a enfrentar os focos de instabilidade e de insegurança. Todavia, pensamos que a GNR deveria fazer-se acompanhar nas suas acções por agentes da actual Polícia de Timor Lorosae, a fim destes iniciarem uma aprendizagem necessária e de forma a que a população venha a constatar que a segurança também passa pelos avanços que se estão a realizar na reintegração dos próprios timorenses nas estruturas futuras.

H - Horta, Ramos - José Ramos Horta é o timorense mais conhecido mundialmente, excepto nas montanhas da sua terra. Ele foi o diplomata que durante mais de 20 anos percorreu o globo à procura de apoios políticos e financeiros para a causa da independência de Timor Lorosae. Foi distinguido com o Prémio Nobel da Paz conjuntamente com o bispo D. Ximenes Belo. No ano de 1975 em que se registou a invasão da Indonésia era ministro da Fretilin. Hoje é ministro da UNTAET com a pasta dos Negócios Estrangeiros e aparenta ser o braço direito de Xanana Gusmão. Perdeu recentemente uma eleição para presidente do Conselho Nacional. Logo houve quem tivesse achado o facto uma calamidade para o seu ego político. Ramos Horta pouco se importou se atendermos que os seus planos serão outros e podem passar, um dia, pelo cargo de secretário-geral das Nações Unidas. Actualmente procura tapar brechas que têm sido abertas pelo desgaste político de Xanana. Sérgio Vieira de Melo, o némero um da UNTAET, parece precisar de Horta como o macaco de banana. O representante máximo das Nações Unidas em Timor Lorosae sabe que a sua missão apenas terá um resultado final positivo se os dirigentes timorenses estiverem ao seu lado e aí o apoio de Ramos Horta é fundamental para que Vieira de Melo saia de Timor Lorosae ao som da banda e dos foguetes.

I - Indonésia - O vilão, o dragão, o carrasco, o vizinho. Um vizinho perigoso ou benevolente? Poucos querem dar a resposta. Há quem saiba no seio militar da ONU que os batalhões militares indonésios instalados na zona de Atambua no passado mês de Março não constituem uma mera operação de rotina. Tem uma intenção e não é pacífica. Para o general Wiranto, por exemplo, o ideal será que as milícias se introduzam lenta e pacificamente por todo o território, dando a ideia de que apenas pretendem a reintegração social, a fim de mais tarde com o país politicamente independente, poder accionar-se uma operação clandestina que introduza em Timor Lorosae o armamento necessário e suficiente para a execução de um golpe de Estado. A Indonésia nunca se conformará com a derrota da saída em Setembro de 1999. E é por isso que tinha um plano rigoroso para a destruição de todo o tecido urbano. E destruíu, violou e matou. Daí a enorme dificuldade para a aceitação das teses de reconciliação com os antigos cooperantes dos carrascos, as denominadas milícias. O que se passa em Timor indonésio com os cerca de 80 mil refugiados é degradante e o maior exemplo de desumanidade. É o exemplo vivo (ou quase morto) de que a Indonésia, leia-se poder militar indonésio, não está minimamente interessada em cooperar na estabilidade ou independência de Timor Lorosae. Indubitavelmente que é um vizinho perigoso, mas ao qual, certamente no futuro, os dirigentes timorenses terão que dar a mão, quanto mais não seja pela via económica, para que as vozes revanchistas se calem de uma vez por todas.

J - Jipes - Nasceram como cogumelos. O jipe é o meio de transporte ideal para o actual estado das estradas de Timor Lorosae. Os jipes estão em todo o lado. Não se vê rua ou estrada onde não esteja estacionado um jipe. Com as letras UN (United Nations) pintadas nas portas são às dezenas. Invadem os hotéis, restaurantes, centros comerciais e as praias. É triste a atitude neo-colonialista dos funcionários da ONU, a quem foi distribuído um jipe com ar condicionado, de ocuparem as praias das redondezas de Díli aos sábados e domingos com as viaturas oficiais, quando a norma definida para os timorenses que trabalham para a mesma ONU, e a quem igualmente foi distribuido um jipe, proibe o seu uso ao fim-de-semana. E a propósito de jipes, saliente-se as frotas que empresas australianas colocaram em Díli para alugar. A um preço tão escandaloso quanto exagerado. L - LUSA - A agência de notícias de Portugal que deixa perplexo e perturbado qualquer visitante mais atento das realidades noticiosas sobre Timor Lorosae. O que se lá em Portugal, Macau, Brasil ou em outro qualquer lugar através do site da LUSA na internet não condiz minimamente com a realidade vivida pelo povo timorense. A falta de reconstrução, a inoperóncia da administração, a inflacionadíssima situação económica, a inexistência de um sector de Saéde (só em quatro dias morreram quatro crianças com diarreia por falta de medicamentos a uma escassa dezena de quilómetros de Díli), a falta de transportes péblicos para um povo que chega a caminhar dez quilómetros para assistir à missa dominical, a ocupação selvagem efectuada pela UNTAET em terrenos particulares e tantos outros abusos, lacunas e necessidades

da população, não são noticiadas pela agência nacional portuguesa. As notícias visam, na maioria das vezes, a actualidade política referente sempre aos mesmos políticos. O que resulta em muito pouco, como contributo válido para alertar as mentalidades de quem possa ainda levar a cabo uma mudança para bem de um povo que está farto de sofrer. Com os desafios sócio-políticos agendados para os próximos anos em Timor Lorosae, a LUSA deveria, no mínimo, estabelecer três jornalistas na sua delegação local. Só assim, a verdade da informação seria conducente com a diversidade.

M - Melícias, Vítor - Um sacerdote muito especial. Homem de confiança do primeiro-ministro António Guterres que tem levado a cabo uma missão difícil e ingrata. Portugal criou estruturas de apoio ao povo timorense. A Missão Humanitária de Portugal, em Díli, tem apresentado um trabalho digno de louvor. Uma equipa reduzida que se multiplica nas mais inémeras tarefas. A batuta tem estado nas mãos de Vítor Melícias dirigindo uma orquestra cuja melodia tem recebido os melhores aplausos. Muitas têm sido as tentativas de certos quadrantes políticos portugueses de afastar este homem que sente o sofrimento dos timorenses e que luta pela sua minimização. Nas próprias hostes diplomáticas tentaram cobiçar o lugar do sacerdote. A que propósito e com que fim? Não obtivemos resposta. Quem melhor que Vítor Melícias para dialogar com os representantes do povo de maioria católica? O "amo lulic" de cabelos brancos, com ar jovial e sempre bem disposto já conquistou o coração dos timorenses apesar de não lhe perdoarem ter levado consigo a Timor Lorosae o líder da igreja muçulmana portuguesa. Melícias esqueceu-se que os invasores de 20 anos eram muçulmanos. Há coisas que o povo perdoa, mas não esquece.

N - Nacionalismo - Uma palavra muito querida na linguagem dos timorenses. Foi o seu sentimento de nacionalismo que suportou uma luta pela independência. O nacionalismo do povo timorense não é uma demonstração de radicalismo ou de exagero político. Nada tem a ver com fundamentalismo. Mas tem tudo a ver com a sua dignidade e identidade cultural. Que os partidos políticos timorenses, os antigos e os novos (um exagero), que actualmente já ultrapassam uma dézia, saibam definir estratégias que não se mostrem abusadoras desse mesmo nacionalismo. A existência de 13 partidos na cena política timorense já é considerado como o primeiro erro político. De dois partidos que defendiam a independência - UDT e Fretilin - assiste-se ao reanimar de associações que no passado defenderam teses integracionistas e ao aparecimento de outras, cujos líderes deixaram de se reconhecer nos estatutos dos anteriores partidos. Em Agosto próximo realizam-se eleições para a Assembleia Constituinte. Será a primeira corrida livre às urnas no território onde o confronto se enquadra entre compatriotas. Desse acto cívico muito poderá resultar de positivo ou de negativo para o futuro dos timorenses. Que os líderes partidários tenham a consciência de que os erros do passado se pagam muito caro.

O - Obituário - Durante a invasão e ocupação indonésia morreram milhares de pessoas. Lamenta-se que nenhum departamento da UNTAET tenha ainda iniciado o registo dos óbitos ocorridos durante esse período trágico e fraticida. Ou pelo menos, nomear-se uma comissão que inicie os trabalhos da inventariação dos timorenses mortos pelo exército indonésio. Um registo histórico necessário para a compreensão do elevado grau de despotismo e de impunidade com que a Indonésia ocupou Timor Lorosae. Os mortos, muitos deles verdadeiros heróis na luta de libertação da sua terra, merecem que o obituário represente uma singela homenagem para que os vivos nunca esqueçam o que foi a dilaceração de um povo-mártir.

P - Portugal - É difícil compreender algumas das atitudes políticas e empresariais geridas por Portugal relativamente a este importante período de transição. O povo português abraçou a causa timorense, chorou de lenços brancos na mão, abraçou Ximenes Belo, Xanana Gusmão, Ramos Horta e Mário Carrascalão como seus irmãos e aprovou que o seu dinheiro fosse dispendido em Timor Lorosae em prol da reconstrução, da saéde, da segurança, do ensino e das infra-estruturas. O Presidente da Repéblica visitou o território e enalteceu o vanguardismo necessário à disponibilidade de meios. O governo português tomou uma posição inequívoca de solidariedade. Os ministros e secretários de Estado nem sempre estiveram consonantes com uma estratégia de apoio efectivo. Abriu-se uma embaixada. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama, passou a dispor de muito pouco tempo para os problemas dos timorenses e talvez não saiba que o apoio ao CNRT na maioria das vezes só tem uma direcção e uma cor.
Portugal está representado no território em várias frentes e é bom sublinhar que a sua presença se deve muito ao sentimentalismo luso da população. Os militares e professores são abraçados pelos timorenses como verdadeiros irmãos. Na actividade privada sobressai, sem dévida, a presença do Banco Nacional Ultramarino, onde o seu coordenador Vasco Silva marca pontos na atracção de potenciais clientes. Anunciou-se que a ANA, associada à ADA de Macau, passaria a rentabilizar o aeroporto ou aeroportos. Em Díli ainda não se nota nada. Registe-se que a sala de embarque apresenta condições piores que o pior país do Terceiro Mundo. No mínimo, os utentes já mereciam ar condicionado para uma espera que por vezes se traduz em mais de duas horas com uma temperatura superior a 30 graus centígrados.

Q - Queimado - De uma ponta a outra encontramos um país queimado. Os algozes destruiram tudo. Está bem patente que se tratou de um plano militar previa e rigorosamente concebido para que todas as casas ficassem em chamas antes da saída final (?). Em Manatuto, Baucau, Lospalos, Ossu, Viqueque, Aileu, Suai, Maliana, Atsabe ou Liquiça, o panorama é idêntico. Chocante e fétido. As ruínas são o espelho da vingança exercida por quem nunca teve razão e lógica para subjugar um povo. A imagem é arrasadora e deixa qualquer humano de sentimentos civilizados à beira do colapso. A imagem que passados 19 meses é apresentada ao visitante é tão desoladora como a da organização que administra o território. No meio das intermináveis reuniões realizadas pelos administradores internacionais estranha-se que ainda não tivesse havido uma resolução para o início da reconstrução. Nos mais de 500 milhões de dólares americanos dispendidos pelos países doadores será que nenhuma parcela do quantitativo vai caber à reconstrução urbanística? Se sim, já tarda.

R - Rádio - A actividade radiofónica sempre foi o meio de comunicação mais influente junto de qualquer população. Nas montanhas de maior altitude ou nas várzeas mais distantes é a rádio que pode exercer com eficácia a divulgação do civismo, da propaganda, do entretenimento ou da prevenção. A palavra e a mésica completam-se como veículo enternecedor do cidadão mais isolado. É através da rádio que se pode exercer uma campanha divulgadora de certos valores sejam eles políticos, culturais ou simplesmente de cuidados físicos. A notícia é fundamental para o acompanhamento da vida social. Em Timor Lorosae a rádio não tem vida, não tem eficácia, não tem professores e não tem amantes. A rádio que se ouve no território não atrai porque não dinamiza. De entre os muitos profissionais de rádio que enchem as estações portuguesas já deveria ter sido contratado um némero ideal para que em Díli e Baucau se activasse o gosto de escutar a rádio, que é o mesmo que dizer que o povo passaria a ter um redobrado interesse em ligar o receptor em função da sua assimilação dos assuntos que dizem respeito à independência tão desejada.

S - Suai - Uma das cidades de Timor mais noticiadas durante o massacre generalizado do exército indonésio em Setembro de 1999. A sua população foi quase exterminada e nem a igreja foi respeitada. É a cidade da costa Sul com maior potencial económico para servir o futuro desenvolvimento de toda a contracosta. Em Suai o trauma do massacre que ceifou centenas de vidas continua latente na mente dos sobreviventes. Talvez por esse motivo a vigilóncia é cada vez mais constante. Vários casos de infiltração de milícias a partir de Atambua têm sido uma realidade. Em Suai há quem esteja atento a essas infiltrações e quem saiba que as mesmas têm a bênção do general Wiranto.

T - Timorense (Povo) - O timorense entrou nos anais da história a partir do momento em que os descobridores portugueses aportaram à ilha da Polinésia com forma de crocodilo. Ao longo dos séculos os acontecimentos tribais na parte da ilha de Timor administrada por Portugal conferiram aos diferentes povos por ela habitada um estatuto de guerrilheiros natos e de justiceiros implacáveis. O timorense é hoje o resultado de uma mistura étnica que em algumas regiões do território ainda não se define como igualitária, antes pelo contrário, assume as suas diferenças culturais e vivencionais baseadas no testamento deixado pelos sucessivos antecepassados. Não existe o timorense. As diversas formas de se ser timorense é que dão existência a um povo denominado timorense que depois de aceitar o convívio com os portugueses de forma ocidentalizada aprofundou o seu sentimento nacionalista e passou a assumir-se como lutador por uma independência política.
É este povo timorense que nos merece o maior respeito pelo que enfrentou durante as duas éltimas décadas. É este povo que procura a sua independência baseada na identidade de legados culturais autónomos. É este povo timorense que o mundo aceitou para o seu areópago e que por esse motivo é merecedor do maior respeito por parte dos actuais administradores da UNTAET. O povo continua pobre, sem condições sociais, sem meios de sobrevivência, sem poder de compra, sem emprego e sem saéde. Os timorenses residentes nas centenas de aldeias regressaram à plantação do arroz, à horta, ao gado, à caça, à pesca, à apanha do café ou ao corte de madeiras. De forma tradicional. Cumprindo o testemunho do passado. Sem sonhos. Em paz. Para que essa paz não volte a ser desvirtuada é necessário convencer esse povo de que a catana deve servir apenas como utensílio. Cabe ainda aos timorenses quebrar a inércia, organizarem-se de forma a equacionar acções que levem à resolução dos seus próprios anseios. Não podem esperar que as soluções caiam do céu e um exemplo disso é a ainda surpreendente presença de monumentos construídos pelos indonésios e dos placares escritos em indonésio, uma particularidade que já deveria ter sido banida do território.

U - UNTAET - United Nations Transition Administration of East Timor. Até como o seu próprio nome indica a UNTAET já está desfasada da realidade timorense. O que era East Timor é hoje Timor Lorosae. As Nações Unidas dispuseram-se a administrar o território necessariamente com o financiamento dos países doadores. A máquina complicada e burocrática que normalmente a ONU apresenta nos locais de conflito por onde tem passado aterrou em Timor Lorosae e não compreendeu que estava perante gente diferente. Gente com inteligência, culta e paciente. Uma paciência que, no entanto, tem limites. E por variados motivos, em Abril de 2001, passados praticamente 19 meses de administração transitória, tudo continua provisório. Motivos que gerem descontentamento, desconfiança e, já em alguns casos, a revolta. A UNTAET assume-se como sábia, mas exerce discriminação perante os timorenses. Apresenta-se como inovadora, mas não permite o avanço da reconstrução e do desenvolvimento. Os seus funcionários auferem, no mínimo, um salário mensal de 10 mil dólares americanos, mas ainda não tiveram tempo de ensinar uma timorense a controlar as malas de mão na sala de embarque do aeroporto, onde se encontra uma funcionária vinda do Uganda ou do Gana. Dezenas de projectos para a construção de estruturas necessárias aguardam meses por resposta. Os milhões de dólares oferecidos pelos doadores parece que não são suficientes para a construção de hospitais ou reconstrução de estradas, dois sectores onde a sua valorização resultaria em grande benefício popular. Administradores que ainda nem sequer se deram conta que o povo precisa de uma empresa de autocarros para o seu transporte. Mas souberam povoar o território com centenas de viaturas criando um abcesso de tal forma doloroso que levou um alto dirigente a afirmar-nos: "A UNTAET só tem duas coisas a fazer. Ou se retira da nossa terra levando essa sucata toda, ou começa desde já a construir oficinas mecónicas para que nós reparemos tanto ferro ferrugento...". A maioria do povo está descontente com o actual estado de administração. O que é pena. Sérgio Vieira de Melo, o chefe da máquina que emperra por todos os lados, tenta a todo o custo apresentar trabalho. Mas que trabalho? Renovador? Não. Empreendedor? Muito menos. Formador? Não se vê Apaziguador em termos políticos? Só se deixar de escolher apenas alguns interlocutores para a resolução dos problemas. Antes das opções políticas de fundo, dos compadrios económicos vigentes (a Austrália é a privilegiada), das decisões sobre a exploração do petróleo, do ouro ou do mármore há que ter em atenção que para o povo timorense o mais importante é chegar ao Mercado com o seu porco, o seu cabrito, o seu arroz ou o seu milho e ter alguém que possa comprar essa sua riqueza. Quando uma casa não tem alicerces, mais tarde ou mais cedo há de ruir.

V - Viagens - De e para Timor Lorosae são realizados os mais diferentes tipos de viagens. Por avião, barco e carro. De avião viajam os administradores, ministros, investidores e turistas. De barco chegam militares e hoteleiros ambulantes. De carro passam a fronteira vários correios que transportam dólares americanos para a Indonésia e rupias para o território (para quando a proibição da rupia?). Muitas são as viagens que os políticos timorenses têm efectuado. Pensamos que demasiadas num momento em que o povo se encontra tão carente de tudo, incluindo dos homens bons. Só no mês de Abril, Sérgio Vieira de Melo foi de férias. Xanana Gusmão ausentou-se para os EUA e para a Indonésia. Manuel Carrascalão, Ramos Horta e Mari Alkatiri para a Austrália. João Carrascalão para Portugal. Xavier do Amaral para Taiwan. O embaixador de Portugal estava ausente. Enfim, um némero de casos que chegou ao nosso conhecimento ao longo de uma curta estada de cinco dias. As viagens são necessárias e importantes, mas a oportunidade e o seu volume talvez merecesse mais contenção por parte das personalidades que têm uma responsabilidade redobrada no destino da novel nação. Infelizmente em Abril de 2001 registe-se um outro tipo de viajantes bem mais lamentável e decadente. Referimo-nos aos passadores de certas drogas de Bali para Díli para consumo de militares e de funcionários internacionais e ainda de certas prostitutas de Darwin que numa semana em Díli obtêm um maior rendimento do que em três meses na Austrália.

X - Xanana Gusmão - O líder incontestado. O resistente moderador. O poeta heróico. O comandante Xanana é sem sombra de dévida o timorense que está posicionado para congregar o seu povo à volta de uma causa imprescindível para o momento político actual. A causa do respeito métuo. Se os timorenses que militam nas diferentes organizações partidárias não entenderem que têm de se respeitar com honra e dignidade, então, podem estar a contribuir para que os algozes indonésios subvertam um processo ímpar na esfera das nações. Xanana tem anunciado por diversas vezes que pretende retirar-se do compromisso político. Em homenagem aos mortos em combate essa pretensão não lhe é permitida. Em louvor da unidade dos vivos terá que se assumir como o primeiro Presidente da Repéblica de Timor Lorosae. Xanana tem um passado cultural português e não deve esquecer-se desse legado, apesar de ter escolhido para sua esposa uma senhora australiana. Ele foi um dos obreiros da aprovação da língua portuguesa como veículo oficial de comunicação no novo país. Xanana sabe qual o significado que representou o abraço que Portugal lhe dispensou. O seu povo quer continuar ligado aos portugueses e essa decisão só poderá encontrar um eco resoluto com a sua pessoa no exercício da tarefa mais alta da governação timorense. Xanana é um sonhador e o sonho pela libertação do seu povo tornou-se realidade. Que não sejam agora os seus advisers a estragar o que comandou a sua vida. Em política é perigoso quando não se destrinça um conselheiro de um oportunista. Xanana está numa situação peculiar. Debaixo de um fogo onde as armas são as palavras. Palavras que por vezes chocam e desanimam. Contudo, a sua afirmação de homem simples só lhe confere vantagens para avaliar e abalizar onde e com quem deverá ser construída a ponte da estabilidade e do progresso da sua Pátria.

Z - Zero - Timor Lorosae ainda se encontra na estaca zero em todos os aspectos. Apela-se aos leitores que continuem a contribuir para uma mudança urgente. Que a solidariedade de hoje seja a semente da independência de amanhã

Textos e fotos de João Severino Abril 2001



Fotos
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A - Mari Alkatiri


B - Na parede da residência de
D. Basílio ainda são visíveis as
marcas dos tiros disparados
pelos militares indonésios



C - Manuel Carrascalão


C - João Carrascalão


C - Mário Carrascalão


E - Sem electricidade, as máquinas de lavar roupa são as mãos


F


G


H


I - Um jogo de cartas em plena via péblica poderá ser o disfarce para o controlo de movimentos de estrangeiros?


J - Os jipes dos funcionários da UNTAET que pululam por todo o lado já incomodam mais que as moscas e mosquitos

L - As notícias da LUSA aparecem publicadas na página 6 de um jornal impresso em indonésio, tetum, inglês e português. Afinal qual será o peso da língua oficial portuguesa?


M - Vítor Melícias


O - Os cemitérios encontram-se por todo o território. Um real testemunho do massacre invasor


P - A presença portuguesa também passa pelo BNU que percorre o território no pagamento das reformas e pensões aos antigos funcionários da administração portuguesa


Q - Um país destruído e queimado a aguardar a reconstrução que já tarda







R - Uma boa programação radiofónica poderia contribuir para acabar com os olhos tristes de muita gente

S - As mulheres timorenses interrogam-se continuamente sobre os motivos porque lhes mataram os maridos e filhos?


T - As dificuldades e as agruras são compensadas com o convívio e com o lazer encontrado no cerimonial das lutas de galos


U - Os cavalos da UNTAET. Ali estão a pastar em frente ao palácio do governo.


U - Uma situação, tal como as muitas barracas de zinco, que não dignifica em nada os actuais governantes


V - Catamaran de dimensão invulgar pertencente à Marinha australiana que tem prestado um grande apoio logístico desde Outubro de 1999.


V - Muitas das raparigas que
trabalham em Darwin têm viajado para Díli onde as relações sexuais são pagas a peso de ouro


X - O Tata Mai Lau é a montanha mais alta do território (4000m), onde Xanana passou muitos dos seus anos de resistência



Z - Que da estaca zero se inicie um processo de reconstrução e desenvolvimento que propicie a estas crianças um futuro risonho